Rosangela_Aliberti

Se a Arte tocar em algum ponto do homem é sinal que alcançou seu objetivo



Diário
20/08/2008 02h27
Muryel De Zoppa

A GUERRA DAS LÂMINAS (ou Lampião na noite da castração)

Metal educado
Em bainha-pedreira
Descansa seu corte
No corpo, caveira

O talo demanda
Do cinza do ferro
Expele, goteja
'Ferrugem' do cérebro

Espaça as entranhas
Açude em vermelho
Não dizem: tem corpo!
- Tem falo, esqueleto

O corte da lâmina
É preciso, amputa
Destina-se ao másculo
Dos cabras-da-puta!

Degola-se a espécime
Gemido profundo
Expõe-se a comenda
Às virgem em luto

Muryel De Zoppa


*


A BALA (duas defuntas)

A face da morte
Projétil da bala
Qual lâmina-corte
No corpo da ‘sala’

O engenho do corpo
Espesso-concreto
É quão denso, absorto
É escuro, abjeto

O corte-centelha
No corpo aquarela
Escudo dos poros
A tez, esfarela

Matéria da bala
Secume sonoro
Batida da vela
Na chama-velório

A alma é extinta
O trajeto (in)certo
O choro (im)previsto
Silêncio do feto

Na Serra-defunto
Cadência da pá
Um corpo-extensão
Dois esquifes, há

Muryel De Zoppa


*


NÃO SE FURA FILA

em Auschwitz.

Muryel De Zoppa

http://dezoppa.blogspot.com


*


(arte final angelalib)

 


Publicado por Rosangela Aliberti em 20/08/2008 às 02h27
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
20/08/2008 02h05
Rainer Maria Rilke na tradução de Augusto de Campos


A gazela
Gazella Dorcas


Mágico ser: onde encontrar quem colha
duas palavras numa rima igual
a essa que pulsa em ti como um sinal?
De tua fronte se erguem lira e folha

e tudo o que és se move em similar
canto de amor cujas palavras, quais
pétalas, vão caindo sobre o olhar
de quem fechou os olhos, sem ler mais,

para te ver: no alerta dos sentidos,
em cada perna os saltos reprimidos
sem disparar, enquanto só a fronte

a prumo, prestes, pára: assim, na fonte,
a banhista que um frêmito assustasse:
a chispa de água no voltear da face.

Rainer Maria Rilke
Trad. Augusto de Campos

*

A Pantera

No Jardin des Plantes, Paris 

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

Rainer Maria Rilke
Trad. Augusto de Campos

*

Hora grave


Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.


Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.

Rainer Maria Rilke
Trad. Augusto de Campos


*

Os anjos 

Têm todos bocas cansadas
e almas claras, sem orla.
E passa-lhes por vezes pelos sonhos
uma saudade (como de pecado).
 
Parecem-se quase todos uns aos outros;
estão calados nos jardins de Deus,
como muitos, muitos intervalos
no seu poderio e melodia.   

Só quando desdobram as asas
é que despertam qualquer vento:
Como se Deus, com as suas largas
mãos de estatuário, passasse
as folhas do escuro Livro do Princípio

Rainer Maria Rilke 

*

Galeria de Paco
- Flickr

 


Publicado por Rosangela Aliberti em 20/08/2008 às 02h05
 
20/08/2008 00h37
Jorge de Lima

FELICIDADE

Tão bonita a Lagoa Mundaú!
Eu vi os meninos pobres que iam tirar sururu.
Um bando deles. Uns tinham doze ou treze anos e pareciam
[ter oito.
Amarelos. Perto da Satuba tem um massapê ótimo.
Eles amassam, amassam, fazem balas.
Cozidas são mais gostosas que sururu. E quem não sabe comer
[barro não sabe tirar sururu, com gosto.
Comer terra! Quando a bala vermelhinha cor de telha toca na
[língua a boca se enche d’água para a bala se embeber.
Os meninos amarelos têm água por demais na boca.
Gosto de terra não é gosto de comida, de sal, de açúcar, de
[carne. É gosto diferente. De terra! É um gosto doente
[como gosto de maleita.
Também quem não tem maleita não sabe tirar sururu com
[gosto.
O frio da maleita não se importa com sol nem com chuva nem
[com o frio que está por fora da gente, no ar.
É um frio que vem de dentro.
Dá-se a mão e a mão está com 40. Mas o frio é bom porque é
[diferente dos outros frios.
Os meninos que vão tirar sururu têm os olhos sumidos.
Mãe-maleita dorme com eles no jirau de pau-cundu. Mãe-
[maleita dá-lhes sonhos de febre.
Os meninos sonham coisas doidas. Que uma inglesinha que
[passou uma vez numa lancha-automóvel veio urinar
[no massapê.
Eles sentem o gosto da inglesinha, sonhando com o gosto do
[massapê mijado.
Têm outros sonhos, todos gostosos.
Os meninos tiram sururu com gosto. Ao meio dia o sol tine. A
[água está morna e suja.
Ali pertinho já é a lama do sururu. Que gosto pisar na lama!
É diferente de pisar nas praias, na neve, na grama.
Os pés dos meninos têm sensibilidades inéditas. A lama abarca
[o pé, entra entre os dedos, mais grossa do que baba de
[boi, gruda-se na pele, dá uma coceira boa nas frieiras.
Os meninos entram mais. A lama sobe. É uma carícia peganhenta
[pelo corpo.
As mãos descem na lama. As canoas afundam de sururu. O sol
[está tinindo, mas ninguém sente calor.
Tudo é bom. A miséria é boa. A lama é amorosa. Parece que a
[vida é uma feitiçaria de sonho de maleita.

Jorge de Lima
In: Novos Poemas
Poemas escolhidos/ Poemas  negros
Editora Nova Aguilar

*

POEMA DO NADADOR

A água é falsa, a água é boa.
Nada, nadador!
A água é mansa, a água é doida,
aqui é fria, ali é morna,
a água é fêmea.
Nada, nadador!
A água sobe, a água desce,
a água é mansa, a água é doida.
Nada, nadador!
A água te lambe, a água te abraça
a água te leva, a água te mata.
Nada, nadador!
Senão, que restará de ti, nadador?
Nada, nadador.

Jorge de Lima
In: Novos Poemas
Poemas escolhidos/ Poemas  negros
Editora Nova Aguilar

*

Foto Galeria de Baycroc
- Flickr

(audio) Xavier Naidoo - Ich 'leb für Dich
http://www.youtube.com/watch?v=UYr0_SPYTRs&feature=related

 


Publicado por Rosangela Aliberti em 20/08/2008 às 00h37
 
19/08/2008 03h58
Führ Mich Ans Licht - Xavier Naidoo

Deinen Namen tragt mein Herz
Dein Fehlen ist mein Schmerz
So rein zu sein wie du
Zeig' wie ich das tu'

Du gibst mehr als du hast
Du liebst mehr als du hasst
Du siehst mehr als du fasst
Fallst niemandem zur Last

Pass nur auf, wenn du gehst
Wenn du deine Plane hegst
Was Freunde schafften, pflegst
Denn bist du unterwegs
Zahl' ich die Tage
Ich erhebe die Klage

Fahr mich ans Licht
Ich enttausch' dich nicht
(2x)

Wir werden teilen, was ich hab'
Du wirst prafen, was ich sag
Geben, was ich dir gab
Ich warte auf den Tag

Du wirst sehen ich mach' wahr
Was vor dir noch keiner sah
Ich bau' dir deine Welt
Ich war' so gern dein Held
Du verlaat nur mein Haus wenn du gehst
Du wirst ernten was du sast
Sieh' zu, daa du alles verstehst
Denn bist du unterwegs

Zahl' ich die Tage
Ich erhebe die Klage

Fahr mich ans Licht
Ich enttausch' dich nicht
(2x)

Du bist noch lang' nicht in Sicht
Weiat deinen Namen wohl noch nicht
Dein Wort hat kein Gewicht
Doch ich schreib' dir dein Gedicht
Ich bin dein, du bist mein
Ich werd' vor dir far dich schreien
Wann wirst du bei mir sein?
Ohne dich bin ich allein
Du bist der Spross unseres Baum's
Die Erfallung meines Traum's
Du bist der, der mich in sich tragt
Und bist du auf deinem Weg
Zahl' ich die Tage
Ich erhebe die Klage

Fahr mich ans Licht
Ich enttausch' dich nicht
(2x)

Du gibst mehr als du hast
Du liebst mehr als du hasst
Du siehst mehr als du fasst
Fallst niemandem zur Last

Pass nur auf, wenn du gehst
Wenn du deine Plane hegst
Was Freunde schafften, pflegst
Denn bist du unterwegs
Zahl' ich die Tage
Ich erhebe die Klage

Fahr mich ans Licht
Ich enttausch' dich nicht
(2x)

Ich zahle die Tage
Ich erhebe die Klage

Fahr mich ans Licht
Ich enttausch' dich nicht
(6x)


Xavier Naidoo - Führ Mich Ans Licht
http://www.youtube.com/watch?v=UU45diJQKp4

*

art by Thom Scott


Publicado por Rosangela Aliberti em 19/08/2008 às 03h58
 
19/08/2008 01h49
O meu inimigo por José Félix

Para o Pedro Mexia
 
O meu inimigo
 
Andas comigo, amigo inimigo
grudado no meu corpo como a carraça das ervas.
És a sanguessuga e sorves o meu sangue
a minha palavra, o meu desejo.
 
Às vezes tenho a sensação
de que andas com o meu rosto
e te ris como eu me rio
e serves-te da minha mão, da minha caneta.
 
Vascas como se eu estivesse ao espelho.
Não! Tu, que estás desse lado não sou eu;
não sou tu quer queiras ou não;
sei que existes e não és nenhum fantasma
 
a rondar a minha biblioteca, o meu quarto.
Não cabes nas fendas das janelas.
Tens a cumplicidade da minha voz.
Sem mim não és nada.
 
Finges que andas sobre as árvores como os duendes
e te escondes nas ramadas
com o intuito da imitação dos meus gestos
do tom da fala, das minhas frustrações, da doença.
 
Garanto-te, inimigo amigo, que tens os dias contados.
O relógio biológico que te regula é o meu.
Quando chegar a hora da partida
nem o fantasma da tua sombra me terá.
 
José Félix



Visite A Teia da Aranha: http://www.ateiadaaranha.blogspot.com

Encontros de Escrita: http://www.escritas.paginas.sapo.pt

*
 
Ilustração heneh


Publicado por Rosangela Aliberti em 19/08/2008 às 01h49
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